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Morango cravejado e a corrida pela próxima trend

Morango cravejado e a corrida pela próxima trend

Há um momento em que uma comida deixa de ser apenas comida e ganha um nome curioso, uma aparência irresistível, começa a aparecer repetidamente no feed, desperta a sensação de que “todo mundo já provou” e, em poucos dias, passa a ocupar vitrines, cardápios e cozinhas de diferentes lugares. O morango cravejado é o exemplo mais recente desse fenômeno.

A fruta, que já havia protagonizado a febre do morango do amor, reapareceu em 2026 em uma nova roupagem: envolvida em brigadeiro branco, chocolate branco e pequenos pedaços de caramelo vermelho, criando uma cobertura que lembra pedras preciosas. A estética não é um detalhe: o morango cravejado precisa ser visto, porque o desejo pela comida agora começa pela tela. 

Durante muito tempo, a relação com a comida era construída principalmente pela experiência presencial. O cheiro que vinha da cozinha, a aparência do prato servido à mesa, a recomendação de alguém próximo, a memória de um sabor. Hoje, uma parte importante dessa experiência começa no celular.

O consumidor compartilha, marca outra pessoa e pergunta onde comprar. É uma mudança que especialistas em tendências gastronômicas vêm observando: o peso do chamado marketing visual. Na prática, se um alimento consegue interromper a rolagem do feed, despertar curiosidade e provocar compartilhamento, ele já reúne elementos importantes para se transformar em tendência. E o morango cravejado parece ter sido desenhado para esse ambiente. 

A textura e aparência de joia produz um objeto altamente fotografável e filmável. Porque agora não basta ser gostoso: o alimento precisa comunicar alguma coisa pela imagem. Um ingrediente conhecido e relativamente cotidiano ganha aparência de produto sofisticado porque sua apresentação altera a percepção de valor. Em Maringá e região, o movimento pode ser observado não apenas nas redes, mas nas próprias linhas de produção. 

Isabela Ribeiro aposta nos virais desde a “febre” do Morango do Amor, e começou a produzir o morango cravejado depois de observar vídeos que circulavam nas redes.

Na Sandrica, em Sarandi, a confeiteira Isabela Ribeiro começou a produzir o morango cravejado depois de observar vídeos que circulavam nas redes. Testou, publicou e começou a vender. Depois que o produto ganhou repercussão, a produção chegou a cerca de 300 a 350 unidades em um único dia. A história é especialmente interessante porque Isabela já havia vivido o fenômeno do morango do amor e o produto se tornou uma espécie de motor para o crescimento do negócio, que inclusive ganhou loja física depois do sucesso do viral do ano passado. 

Na Brioche Crocante, assim que perceberam que o cravejado estava ganhando força, criaram quatro versões: branca, maracujá, brigadeiro de chocolate ao leite e pistache. No primeiro dia, foram produzidas 120 unidades. Todas foram vendidas em aproximadamente duas horas e meia. A produção chegou posteriormente a uma média de 350 a 400 unidades por dia. A tendência não chega mais necessariamente depois de uma pesquisa de mercado, de uma campanha planejada ou de uma estratégia comercial construída durante meses. Muitas vezes, ela chega por um vídeo.

Mas toda trend é um bom negócio?

Viralizar não significa necessariamente lucrar. Um produto pode acumular milhões de visualizações e ser ruim para a operação de uma empresa. É preciso considerar o custo dos ingredientes, tempo de produção, mão de obra, perdas, armazenamento, validade…

Monadelli chegou a vender 500 morangos do amor por dia; com o cravejado a média é de 150 a 200 unidades.

Na Monadelli, por exemplo, o morango do amor chegou a aproximadamente 500 unidades vendidas por dia no auge da febre e exigiu uma estrutura de produção muito maior, com até sete confeiteiros dedicados ao produto. O cravejado também ganhou espaço, mas em uma escala inicialmente menor, de cerca de 150 a 200 unidades por dia, ainda considerada administrável pela equipe. Ou seja: a nova tendência pode ser um sucesso de vendas sem necessariamente reproduzir a mesma dimensão da anterior. E isso importa porque existe uma diferença entre estar viral e ter um produto consolidado.

A questão é que quando alguém compra um morango cravejado, não está comprando apenas morango, brigadeiro, chocolate e caramelo. Está comprando curiosidade pelo que viu na internet. Está comprando a possibilidade de filmar, compartilhar e dizer: “eu também experimentei”. A tendência não vende apenas um produto. Vende pertencimento. A estética de luxo ajuda a transformar uma sobremesa conhecida em um objeto de desejo.

A matemática da viralização

Segundo dados publicados pela Folha, o interesse pelo termo “morango cravejado” no Google cresceu 1.460% em um intervalo de sete dias, enquanto o volume de pedidos pelo doce no iFood chegou a ser 350 vezes maior entre o primeiro registro e o pico observado em agosto. A Exame também registrou crescimento de 105.200% no volume de pedidos do doce no iFood em apenas 11 dias. São números que ajudam a entender por que as confeitarias precisam reagir rapidamente. A tendência nasce, atinge o auge e perde espaço para a próxima novidade em uma janela curta de tempo (e de oportunidade).

Mas o fenômeno não termina no morango, porque a “corrida pela próxima trend” parece não ter mais fim.

A principal transformação provocada pelas redes sociais na gastronomia é que a comida precisa funcionar em duas dimensões: na boca e na tela. De olho na trend, Brioche Crocante criou o morango cravejado em quatro versões.

Análises recentes sobre gastronomia trazem dados sobre como alimentos e preparos passaram a disputar atenção em um ambiente em que a novidade é um valor em si. E talvez seja esse o ponto que mais interessa. A tendência muda, mas o comportamento permanece com a busca por aquilo que surpreende visualmente, que pode ser compartilhado e que oferece ao consumidor uma pequena experiência de exclusividade.

Entender isso pode ser mais importante do que descobrir qual será o próximo produto viral. Porque copiar a trend pode garantir algumas semanas de vendas, mas entender por que ela viralizou pode ajudar a criar a próxima.

A principal transformação provocada pelas redes sociais na gastronomia é que a comida precisa funcionar em duas dimensões: na boca e na tela. O morango cravejado reúne essas duas possibilidades. É um bom retrato de um momento em que a estética passou a participar da receita, o celular passou a fazer parte da mesa e as redes sociais passaram a influenciar não apenas o que queremos comer, mas também o que as empresas precisam aprender a produzir.

O morango cravejado provavelmente dará lugar a outro protagonista. Mas a lógica que o colocou no centro da conversa gastronômica talvez tenha vindo para ficar: antes de chegar à boca, a comida precisa conquistar os olhos e, cada vez mais, o algoritmo.

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