O cheiro de especiarias anuncia que há algo diferente acontecendo antes mesmo de entrar na fábrica. Na Avenida Lucílio de Held, no Jardim Alvorada, uma pequena empresa transforma plantas, sabores e histórias em blends de chás que chegam a cafeterias e consumidores de diferentes regiões do Brasil.
Assista ao vídeo completo da visita aqui.
A Kãnfa Chás Especiais foi criada pela bióloga, engenheira agrônoma, mestre em Ciências Ambientais, doutora em Agronomia e sommelier de chás Danielle Mangarotti. A empresa se aproxima dos seis anos de existência, mas a história de Dani com os chás começou bem antes de criar a própria marca. Ela trabalhou desenvolvendo fórmulas para outras empresas, mas queria levar sua própria história para as xícaras.

Foi assim que nasceu a Kãnfa, que hoje fornece blends de chás especiais tanto para o consumidor final quanto para cafeterias e confeitarias, sempre embalados com ilustrações criadas por diferentes artistas e acompanhadas de pequenos presentes que enriquecem a experiência, como playlists inspiradas nos sabores para serem ouvidas enquanto se degusta o produto. A proposta é transformar o momento do chá em uma experiência sensorial completa.
Um chai que começou na família
Entre os produtos que melhor traduzem essa filosofia está o chai.

Dani conta que a relação com a bebida começou ainda na infância, por influência da avó, que preparava uma receita sem necessariamente saber que aquilo fazia parte de uma tradição indiana. A conexão ganhou novo significado anos depois, quando Dani fez sua formação como sommelier de chás e tea blender. Durante o módulo dedicado à Índia, descobriu que cada família pode ter sua própria receita de chai. A informação despertou uma associação imediata com a memória familiar. A partir daí, o chai ganhou espaço especial na Kãnfa.
Hoje, são três versões: o Namastê, inspirado no chai clássico indiano; o Vital Chai, que combina chá preto, especiarias, casca de cacau e chocolate 70%; e o Mama Chai, que aproxima a tradição indiana de ingredientes e referências brasileiras.
A relação entre memória e criação também aparece em outros blends. O Selvagem, por exemplo, foi inspirado no livro Mulheres que correm com os lobos. Já o Amor Próprio nasceu a partir de uma frase associada à escritora Clarice Lispector. Para Dani, cada receita precisa carregar uma história e provocar alguma sensação. Inclusive, a inspiração decisiva para transformar essa paixão em profissão veio de outro livro: Cozinhar, do jornalista e ativista norte-americano Michael Pollan, lido por ela em 2014. A formação científica ajudou a construir essa trajetória. O conhecimento adquirido na biologia, na agronomia, no mestrado em Ciências Ambientais e no doutorado em Agronomia foi sendo combinado com estudos específicos sobre chá, sensorialidade e diferentes tradições relacionadas às plantas.

A ciência por trás da mistura
Criar um blend, explica Dani, começa muito antes da combinação dos ingredientes. Primeiro vem a intenção: o que aquela bebida deve despertar? Relaxamento? Energia? Aconchego? Uma memória? Depois vêm os testes, as combinações e, principalmente, a degustação.
O resultado precisa fazer sentido não apenas para quem cria, mas também para quem experimenta. É nesse processo que entra o trabalho do tea blender, profissional especializado em estudar ingredientes e harmonizá-los. A formação envolve conhecimentos de diferentes culturas e tradições relacionadas às plantas, além de muita experimentação. Para Dani, repertório sensorial é fundamental. Quanto mais aromas e sabores uma pessoa conhece, mais possibilidades ela tem para criar novas combinações. A Kãnfa também mantém receitas que ainda não chegaram ao mercado, cada uma com uma intenção específica, seja relacionada à experiência sensorial, seja às propriedades tradicionalmente associadas às plantas.
É justamente essa possibilidade de descoberta que está no centro do Festival do Chai, evento que nasceu do desejo de aproximar o público paranaense de um universo ainda pouco explorado. Embora o Paraná seja apontado por Dani como o maior produtor de plantas medicinais do Brasil, ela observa que o Estado não possui uma tradição tão forte de consumo de chá quanto outras regiões e culturas. O festival, que está na terceira edição, surge como uma maneira de despertar curiosidade.

Nas cafeterias participantes, o chai pode aparecer quente ou gelado, acompanhado de diferentes preparos, sobremesas, pães e outros itens do cardápio. A mesma receita pode ganhar personalidades completamente diferentes dependendo da forma como é preparada e harmonizada. A experiência também dialoga com uma característica de Maringá: a cidade tem tradição em festivais gastronômicos e um público disposto a conhecer novos sabores.
Para Dani, as cafeterias são ambientes especialmente interessantes para essa descoberta. É ali que o consumidor pode chegar pensando em tomar um café e, diante de uma carta de chás diferente, decidir experimentar algo que ainda não conhece. “Uma mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao tamanho original”, lembra a fundadora, citando uma máxima atribuída a Albert Einstein. Para ela, o chá pode ser apenas o primeiro passo. Um convite para sentar à mesa, conversar com alguém e experimentar um sabor diferente, quando uma xícara deixa de ser apenas uma xícara e passa a contar uma história.









