Uma receita criada pela gelateria maringaense Flor do Ingá vai representar o Brasil em uma “Copa do Mundo” de gelatos artesanais. Ela foi uma das duas selecionadas no país para seguir para etapa mundial da competição mais importante da categoria, que acontece a cada quatro anos, o ‘Gelato Festival World Masters’, marcado para maio de 2026, na Itália. GMC Online
A fase nacional da competição começou em 2023 e o empreendimento maringaense não conseguiu se classificar com a primeira receita de uva com chocolate branco, geleia de uva e macadâmia caramelizada, apresentada naquele ano. Porém, em 2024, houve mais uma chance e, dessa vez, o sabor “Doce Encontro” seguiu para a avaliação final de jurados renomados no universo gastronômico, que ocorreu na semana passada, em São Paulo. A autora da receita é Aline Vieira, sócia-proprietária da Flor do Ingá ao lado do marido.

A ideia de misturar um queijo azul intenso e cremoso, tipo gorgonzola, com uma geléia de sabor cítrico veio durante uma viagem à Itália, onde Aline degustou algo parecido em uma tábua de frios. A combinação agradou e, de volta ao Brasil, Aline começou os testes. Primeiro tentou com laranja, mas faltava uma acidez mais pronunciada, que ainda assim mantivesse tons florais e frescos, que remetessem à tropicalidade brasileira. Foi no limão cravo, também conhecido como limão rosa, que ela achou o que procurava.
A acidez delicada na medida encontrou um casamento perfeito com o gelato de queijo azul, que já era servido aos clientes da gelateria com toques de doce de leite, pêra ao vinho e geléia de damasco. Para apresentar aos jurados, Aline ainda colocou pedaços da casca da fruta, mas precisou, para isso, encontrar um jeito de tornar o ingrediente comestível e sem o amargor característico. A originalidade e a ousadia agradaram o júri composto por Saiko Izawa, confeiteira executiva do Hotel Rosewood São Paulo; Patrícia Ferraz, jornalista gastronômica e colunista do Paladar, do Estadão; e Claude Troisgros, chef de cozinha francês.

Ao todo, 15 sabores produzidos por diferentes gelaterias finalistas de todo o Brasil foram degustados pelo trio, que se surpreendeu com o sabor maringaense, que não era obviamente doce, como a maioria dos concorrentes, e chegou a questionar se a ideia era ser sobremesa ou servir como entrada. A união de poucos ingredientes criou uma experiência equilibrada e marcante, que levou a gelateria maringaense à próxima fase, representando o Brasil.
“Eu quase caí das pernas na hora que fiquei sabendo quem seria o júri, porque a pessoa que você admira está ali te julgando. Dá um friozinho na barriga, mas foi gratificante. Eu me acalmei, respirei bem para poder falar e acredito que consegui expressar o que gostaria de expressar. Mas acho que o que mexeu com eles realmente foi o salgadinho-ácido, deu um bug legal na cabeça deles. A gente competiu com pessoas muito experientes, pessoas que estudam tanto quanto a gente, que lutam tanto quanto a gente para entregar o melhor. Não foi fácil classificar para a final, então ali todos já eram vencedores. Apesar do nosso sabor ser complexo de fazer, pela questão estrutural, de cálculo, balanceamento de receita, quando você olha de fora o nosso sabor é simples porque ele não tem muitos componentes. Tinha competidor que tinha cinco, quatro componentes na receita. E quando falaram meu nome, por um segundo pensei se não teria outra Aline, sabe? Porque o nível ali estava muito alto, tinha muitos sabores muito criativos. Então ficamos muito felizes por ter sido escolhida”, comemora a maringaense.
Do início ao gelato premiado
Aline e o marido se conheceram trabalhando em um shopping, no interior de São Paulo. A maringaense voltou para a terra natal para ficar mais próxima da mãe, que estava com a saúde debilitada, e em Maringá decidiu dar vida ao sonho de empreender. “Sempre gostei de trabalhar com doce, sempre gostei de fazer doce. Então já tinha um viés voltado para a culinária. O que faltava era dar atenção para essa voz interior. Eu trabalhava com vendas, mas nunca tinha trabalhado no ramo alimentício”, relembra ela. GMC Online
A Flor do Ingá abriu em 2017 e começou vendendo gelatos prontos, industrializados. Mas Aline sentia que as receitas poderiam ser aprimoradas; durante a pandemia, ela se dedicou a cursos dentro e fora do país para iniciar a produção artesanal. Ela, que sempre gostou de gastronomia, buscava sabores; o marido, interessado por maquinários, pesquisava os melhores equipamentos. Desde 2021, combinaram mais de 20 receitas próprias e nunca pararam de se aprofundar nos estudos.
“Sorvete não é como receita de bolo. O que a gente faz é artesanal; cada receita exige balanceamento, leva em conta nutrientes — gordura, proteína, açúcares —, cada ingrediente tem importância. Fizemos vários cursos, no Brasil e na Itália. Somos muito curiosos, estudamos insumos, combinações, porque esse universo gastronômico é dinâmico”, diz Aline.
O sabor premiado pode ser degustado pelos maringaenses a partir da segunda quinzena de agosto, quando a Flor do Ingá reabre após reformas. E em 2026, esse mesmo Doce Encontro será servido aos jurados da etapa mundial do campeonato de gelatos artesanais.
“Estamos cientes do que nos espera, porque lá fora o pessoal também está bem engajado. É um sonho estar numa final, ser campeão do mundo, mas se você parar pra pensar, no mundo inteiro há queijo azul. Então acho que é uma forma de agradar o paladar. Apesar de incomum, pela versatilidade, ele agrada o mundo todo. Mesmo sendo tão singelo, simples, pode ser positivo”, torce a maringaense.
Este conteúdo foi publicado primeiro na coluna Marinando no GMC Online. Leia mais em: https://gmconline.com.br/coluna/marinando/conheca-a-gelateria-maringaense-que-vai-representar-o-brasil-em-competicao-mundial/










