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Sabor de saudade: migrantes trazem memórias à gastronomia maringaense

Matar a saudade da terra natal por meio do sabor guardado na lembrança: essa é a motivação de muitos imigrantes estrangeiros e migrantes que vieram de outras partes do Brasil para dar o primeiro passo no mercado gastronômico maringaense. Para além de restaurantes já estabelecidos, é possível encontrar sabores do mundo em pequenos negócios que tiveram seu início impulsionado por memórias.

Um deles é de Alexander Figueroa Ramos. O engenheiro eletricista venezuelano e a esposa, química industrial de profissão, se mudaram para o Brasil com a ideia de trazer a empresa que tinham na terra natal para cá. Porém estabelecer a construtora por aqui, validar os diplomas e fazer a homologação era um trabalho mais caro e demorado do que o que haviam previsto.

A adaptação da família à alimentação brasileira também foi um obstáculo inesperado. “Na hora de tomar café da manhã a gente ‘passava trabalho’ porque não sabíamos o que comer. Aqui normalmente, para a nossa percepção naquela época, eram poucas opções. Ou era tapioca, ou era pão francês com manteiga, ou era alguma coisa doce, ou era um ovo mexido”, conta. A maior saudade era das arepas, um prato de massa de pão feito com milho moído ou com farinha de milho pré-cozido, muito tradicional na Venezuela.

O casal começou a testar diferentes receitas com os insumos que encontraram aqui e convidaram amigos brasileiros para tomar café da manhã servindo o prato típico. Eles gostaram tanto que sugeriram que os dois abrissem um negócio para vender os quitutes. Na dúvida entre abrir um restaurante ou começar por delivery, o casal venezuelano conheceu as feiras brasileiras e viram ali uma oportunidade. O investimento era menor e seria uma maneira de testar a aceitação do público.

A iniciativa surgiu em Dourados (MS) e fez sucesso nas feiras de lá.

“Aí depois queríamos uma cidade com melhor qualidade de vida, mais habitantes. Procuramos na internet e apareceu Maringá como a melhor cidade do Brasil para morar”, relembra Alexander. A família se mudou para a Cidade Canção e, desde 2023, é possível encontrar a barraca das Arepas Douradas na Feira do Produtor e na praça do teatro Reviver Magó.

A esposa e a filha de Alexander trabalham com ele nas feiras maringaenses vendendo pratos típicos da Venezuela. / Foto: arquivo pessoal

No cardápio há ainda a tizana, uma bebida refrescante popular na Venezuela, tequeño — uma massa frita recheada de queijo —, e patacón — um tipo de sanduíche que tem como base banana-da-terra frita. O menu ainda conta com as empanadas venezuelanas, feitas com farinha de milho.

As empanadas também são o carro-chefe dos pedidos que Lila Cuesta recebe por encomenda, mas as suas são argentinas. Porém, diferente das encontradas na capital Buenos Aires, que são assadas, as dela são fritas, como é típico em Córdoba, onde Lila nasceu e cresceu. Os recheios são variados: há de cebola caramelizada com queijo, de sardinha com pimentão, de espinafre com ricota… mas o mais lembrado é o de carne, que leva uvas passas e um tempero secreto de família, que ela aprendeu com a mãe.

As empanadas argentinas, receita de família, são o carro-chefe dos pedidos que Lila Cuesta recebe por encomenda. / Foto: arquivo pessoal

E foi a pedido dos filhos que Lila resolveu vender as empanadas que sempre estiveram presentes no cardápio da casa da família. A memória afetiva é espalhada entre todos que provam a iguaria vinda da terra dos hermanos. E para adoçar, os típicos alfajores argentinos já substituem lembrancinhas e bem-casados para muitos dos clientes.

Mas em um país continental como o Brasil, nem precisa ir tão longe para encontrar culinárias diferentes que moram na memória de quem se muda. Foi assim com Anailla Giraldes. A manicure cresceu no Centro-Oeste brasileiro e, em Maringá, não conseguia encontrar muitos dos pratos que cresceu comendo. Quando a saudade apertou demais, ela decidiu lançar uma pesquisa em um grupo do Facebook para ver se mais gente tinha lembrança desses pratos e se haveria público para investir em um negócio gastronômico. As respostas de incentivo foram o empurrão para fazer nascer o Sabores do Cerrado, com pratos disponíveis por encomenda ou nas plataformas de delivery.

Empadão goiano foi uma das primeiras receitas que a manicure Anailla Giraldes passou a vender por encomenda e pelo delivery para matar as saudade dos sabores do cerrado. / Foto: reprodução redes sociais

“Eu cozinho desde os meus 12 anos, para minha mãe, para o meu irmão. Como minha mãe não tinha empregada, eu era a irmã mais velha, então eu tinha que deixar a comida pronta, ajeitar a casa… minha mãe sempre trabalhou muito fora. E daí eu sempre fiz comida, deixava o básico pronto, arroz, feijão. Só que eu sempre fui muito curiosa com relação a pratos. Então eu ia na casa das minhas amigas, tinha carne de sol, o tal do empadão goiano. E eu sinto muita falta disso. O empadão já tinha quase oito anos que eu estava sem comer. E aí eu resolvi fazer.” O negócio está no início, mas tem feito sucesso. O cardápio inclui, além do famoso empadão, pratos como rabada caipira, cabotiá com carne seca e uma galinhada raiz do cerrado.


Este conteúdo foi publicado primeiro na coluna Marinando no GMC Online. Leia mais em: https://gmconline.com.br/coluna/marinando/sabor-de-saudade-migrantes-trazem-memorias-a-gastronomia-maringaense/

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