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Camadas de História: a receita que atravessou o mar e virou memória afetiva

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Pode até parecer que a lasanha nasceu pronta — com suas camadas generosas de molho, massa e queijo saindo fumegantes do forno. Mas a história desse prato é cheia de voltas, adaptações e, claro, polêmicas. Será mesmo que a lasanha é um prato italiano? Ou ela é, na verdade, uma invenção muito mais antiga, que foi se “italianizando” com o tempo?

Neste Dia da Lasanha, o Marinando mergulhou nos bastidores desse clássico de forno para entender como ele surgiu, se espalhou pelo mundo e ganhou, no Brasil, aquele toque de presunto — e o que mais der na telha — que ninguém na Itália colocaria no prato. E mais: descobrimos como a herança italiana ajudou a moldar o paladar maringaense — e por que, por aqui, lasanha também é sinônimo de almoço em família.

Do latim ao forno

Segundo Alan Davidson, no clássico The Oxford Companion to Food, o termo “lasanha” vem do latim lasanum, que significa algo como “recipiente de cozinhar” — provavelmente uma panela funda, usada pelos romanos antigos. Já Massimo Montanari, um dos maiores historiadores da alimentação, afirma que os romanos já cozinhavam massas em camadas com molhos, o que poderia ser um precursor da lasanha moderna.

Outros estudiosos, como a pesquisadora italiana Anna Maria Pellegrino, apontam que a palavra laganon, usada pelos gregos, se referia a uma massa achatada cortada em tiras largas, semelhante a uma lasanha aberta. A ideia, portanto, de sobrepor camadas de massa com recheios e molhos é bem mais antiga do que se imagina.

Mas foi mesmo na região da Emília-Romanha, especialmente na cidade de Bolonha, que a lasanha assumiu sua forma mais tradicional e passou a ser registrada como receita. É de lá que vem a famosa lasagna alla bolognese — feita com massa fresca verde (levemente tingida com espinafre), molho ragù alla bolognese (cozido lentamente com carne bovina, suína, vinho e tomates), molho bechamel e queijo Parmigiano-Reggiano. Nada de presunto. Nada de requeijão.

A lasanha atravessa o oceano

Com a imigração italiana — perdoe-me o trocadilho — em massa, no fim do século 19 e início do 20, a lasanha viajou para o Brasil. Aqui, passou por uma transformação saborosa. A escassez de ingredientes europeus e a criatividade dos brasileiros deram origem a versões com presunto, frango, requeijão e até pão de forma. A lasanha se abrasileirou — e virou estrela do almoço de domingo.

Maringá, com sua forte presença de descendentes de italianos, ajudou a manter viva essa tradição — seja nas mesas das famílias ou nas tradicionais casas de massas da cidade, como Mania de Massa, Rivoli, Napoli, Nonna Angela e a Massas Humaitá, que se apresenta no Instagram como “A casa da lasanha desde 1991, servindo Maringá”. Essas rotisserias vendem lasanhas congeladas e resfriadas, muitas delas montadas na hora, prontas para assar. É o típico almoço de domingo maringaense: prático, afetivo e com aroma de comida feita com calma.

Na Massas Humaitá, o vínculo com os clientes é tão próximo que você pode até levar seu próprio marinex ou refratário — e eles montam a lasanha ali, para você só levar e assar em casa. Um serviço simples, mas cheio de afeto, que atravessa gerações.

Uma lasanha, um navio e uma história de amor

Famílias como a da professora de inglês aposentada Elvira Mileo Ganassin, de 59 anos, guardam na cozinha as memórias de gerações. O nome dela é uma homenagem à nonna, Elvira Pellegrino Mileo, que nasceu em San Costantino di Rivello, na província de Potenza, sul da Itália. E a Elvira virou apenas Elvi, como é carinhosamente chamada por todos.

Seu pai, Domenico Mileo — ou Mingo, como era conhecido — chegou ao Brasil em 1950, aos 18 anos, acompanhado de dois primos. O trio começou a vida em São Paulo, trabalhando em um comércio de montaria. Em 1961, vieram juntos para Maringá, onde abriram um negócio semelhante.

Mingo havia deixado na Itália mais do que lembranças: deixou Maria, sua amiga de infância e paixão de longa data. Antes de embarcar, prometeu que voltaria para buscá-la — e cumpriu. Em 1964, retornou ao vilarejo onde cresceu para se casar com a mulher com quem havia se correspondido apenas por cartas. Grávida de quatro meses, Maria quase não conseguiu permissão para embarcar no navio — mas conseguiu. E, juntos, iniciaram uma nova vida no Brasil. Elvi e os dois irmãos nasceram em Maringá.

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Mingo com os filhos Aurelio, Elvira e Maria Antonietta, em registro de 2016 (Foto: Arquivo particular)

“Não tenho memória de comer lasanha feita pela minha avó. Mas meu pai fazia uma lasanha simples, com camadas de molho de tomate e queijo mussarela. Depois, passou a incluir carne moída refogada com um pouco de molho, só pra dar liga”, relembra Elvi. Maria, a mãe, também era uma excelente cozinheira. “Nossa casa vivia cheia de amigos que vinham comer a comida italiana”, conta. Entre os mais próximos, ela era carinhosamente chamada de mamma — porque era, de fato, uma verdadeira mãe para todos.

Viúvo da primeira esposa, Mingo se casou com dona Lourdes — também descendente de italianos e cozinheira de mão cheia — que, anos depois, também se tornaria sogra de Elvi: ela e o filho de Lourdes se casaram, formando uma nova família a partir dessa união improvável e cheia de amor. Hoje, mesmo após o falecimento do marido e do pai, Elvi continua preparando a receita de lasanha ao lado da sogra-madrasta. “A gente ainda faz a massa em casa, passa no cilindro elétrico… mas minha vó abria tudo no rolo de madeira”, diz.

Aos domingos, a casa dos Mileo vivia cheia. Além da lasanha, a mesa reunia raviolifusilli e tagliatelle, todos feitos à mão — como manda a memória afetiva de uma cozinha italiana.

Versões que contam histórias

Hoje, a lasanha ganhou versões vegetarianas, veganas, sem glúten, de berinjela, de abobrinha, de frango, de peixe… e por aí vai. Mas o espírito continua o mesmo: camadas de delícias e afeto. Porque, no fim das contas, cada lasanha carrega um pouco da história de quem a faz — e da cultura que a moldou.

Então, neste Dia da Lasanha, vale a pena lembrar: por trás de cada garfada, há séculos de tradição, adaptações e encontros de culturas. E se tiver presunto e requeijão no meio, tudo bem também — é a nossa versão da história.

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